CBCC 2026: Remoções de carbono: o papel do MRV no mercado de carbono
A agenda de remoções de carbono vem ganhando espaço no mercado de carbono e ampliando as discussões sobre integridade, tecnologia, gestão de riscos e permanência. Esse foi um dos temas debatidos pela Biofílica durante a Conferência Brasileira de Clima e Carbono 2026 (CBCC 2026), realizada nos dias 27 e 28 de agosto, no Memorial da América Latina, em São Paulo.

No Painel 9, “O papel das remoções no mercado de carbono”, nossa Global Head of Climate Solutions, Soraya Dias Pires, participou de uma discussão sobre a evolução das remoções, os desafios relacionados à permanência do carbono e o papel do MRV, sigla para Monitoramento, Relato e Verificação, na gestão de riscos de projetos de longo prazo.
Ao lado de Soraya, participaram Juliana Rolla De Leo, CEO da OMA Ativos Ambientais; Elen Blanco Perez, Coordenadora Sênior de Finanças para o Clima da Conservação Internacional (CI-Brasil); e Beatriz Pita, Diretora Executiva da Carbô. A conversa foi moderada por Marcelo Lucian Ferronato, Secretário Executivo da Aliança pela Restauração na Amazônia.

O avanço das remoções no mercado de carbono
As remoções ocupam um espaço cada vez mais relevante nas discussões sobre o futuro do mercado de carbono. A evolução dessa agenda também amplia a diversidade de abordagens, tecnologias e modelos de projetos voltados à retirada de carbono da atmosfera.
Para Soraya, as remoções fazem parte da evolução do mercado e devem ser compreendidas de forma complementar às iniciativas de conservação.
Mais do que uma discussão sobre diferentes tipos de projetos, esse movimento traz novos desafios relacionados à mensuração, ao acompanhamento dos resultados e, principalmente, à permanência do carbono removido ao longo do tempo.
Em projetos baseados na natureza, esses desafios ganham uma dimensão adicional. Florestas, solos e outros sistemas naturais estão sujeitos a variáveis biológicas, climáticas e territoriais que podem alterar a trajetória esperada de uma remoção.
Por isso, avaliar apenas a quantidade de carbono removida não é suficiente para compreender a qualidade e os riscos associados a projetos que possuem horizontes de décadas.

MRV como infraestrutura de gestão de risco
O MRV, ou Monitoramento, Relato e Verificação, tradicionalmente está associado à mensuração dos resultados climáticos de um projeto e à verificação das informações reportadas.
Com a evolução tecnológica, porém, essa estrutura pode assumir uma função mais ampla.
Ferramentas como LiDAR, drones, radar, inteligência artificial e modelagem ampliam a capacidade de coletar, cruzar e interpretar informações sobre os territórios. O desafio passa a ser transformar esse conjunto de dados em conhecimento capaz de apoiar decisões e antecipar riscos.
Como destacou Soraya durante o painel:
“O MRV pode deixar de ser apenas uma ferramenta de mensuração e verificação para se tornar uma verdadeira infraestrutura de gestão de risco.” Soraya Pires, Global Head of Climate Solutions

Essa mudança de perspectiva é especialmente relevante para projetos de remoção baseados na natureza. Em iniciativas de grande escala e com horizontes de 30 ou 40 anos, o monitoramento precisa contribuir não apenas para saber quanto carbono foi removido, mas também para compreender quais fatores podem comprometer sua permanência.
Permanência do carbono exige gestão de riscos
Projetos de remoção baseados na natureza estão inseridos em sistemas dinâmicos. Eventos climáticos, mudanças no território, características biológicas e outros fatores podem influenciar os resultados ao longo do tempo.
Nesse contexto, o acompanhamento contínuo e a qualidade das informações tornam-se elementos importantes para a gestão dos projetos.
Segundo Soraya:
“Em projetos de grande escala e com horizontes de 30 ou 40 anos, não basta perguntar apenas quanto carbono foi removido. É cada vez mais importante entender qual é a probabilidade de essa remoção permanecer ao longo do tempo e quais riscos podem comprometer essa trajetória.”
Essa abordagem amplia a discussão sobre integridade. A qualidade de uma remoção também está relacionada à capacidade de identificar incertezas, acompanhar sua evolução e atuar de forma antecipada quando necessário.
O avanço do MRV pode, portanto, aproximar dados técnicos das decisões tomadas por diferentes agentes do mercado, incluindo investidores, financiadores, compradores e seguradoras.

Tecnologia, pesquisa e escala
A evolução tecnológica também pode contribuir para tornar o monitoramento mais eficiente e ampliar a capacidade de atuação em projetos de grande escala. O desenvolvimento de novas ferramentas, a pesquisa científica e a participação de universidades e empresas especializadas podem ajudar a aumentar a velocidade de coleta e análise de informações, além de reduzir custos operacionais.
Para Soraya, essa evolução tem um impacto que vai além da tecnologia. A redução de custos e o aumento da eficiência podem contribuir para que mais recursos cheguem aos territórios e às pessoas envolvidas nos projetos, fortalecendo mecanismos de repartição de benefícios e criando condições para a continuidade das iniciativas no longo prazo.
Nesse sentido, tecnologia e inovação não são apenas instrumentos para gerar mais dados. Elas podem contribuir para conectar eficiência operacional, gestão de riscos e geração de benefícios nos territórios.
Integridade, escala e capital
O crescimento da agenda de remoções traz uma questão central para o desenvolvimento do mercado: como combinar escala e mobilização de capital sem abrir mão da integridade climática?
Para Soraya, uma parte importante dessa resposta está na capacidade de transformar incertezas biológicas, climáticas e territoriais em informações que possam ser compreendidas e utilizadas na tomada de decisão.
“Quando transformamos incertezas biológicas, climáticas e territoriais em informação de risco, aumentamos a capacidade de investidores, financiadores, compradores e seguradoras de avaliar qualidade, retorno, permanência e confiança na entrega futura das remoções.”
Essa conexão entre informação, risco e capital pode contribuir para uma evolução do mercado, especialmente à medida que projetos de remoção ganham escala e passam a exigir estruturas cada vez mais sofisticadas de monitoramento e gestão. O debate sobre remoções, portanto, não se limita à quantidade de carbono retirada da atmosfera. Envolve também a qualidade dos dados, a compreensão dos riscos, a permanência dos resultados, a capacidade de intervenção e a construção de mecanismos que permitam direcionar capital para projetos de longo prazo.
Um mercado em evolução
A discussão realizada na CBCC 2026 reforça que o desenvolvimento do mercado de remoções passa por uma combinação de ciência, tecnologia, gestão de riscos, integridade e capital. No caso das Soluções Baseadas na Natureza, essa evolução precisa considerar as particularidades dos sistemas naturais e dos territórios onde os projetos são desenvolvidos. Ao transformar o MRV em uma estrutura cada vez mais integrada à gestão de riscos, o mercado amplia sua capacidade de compreender não apenas o que aconteceu, mas também os fatores que podem influenciar os resultados no futuro.
Como resume Soraya:
“E talvez esse seja um dos pontos mais estratégicos para o futuro do mercado: aproximar cada vez mais integridade climática e alocação de capital.”
Agradecemos à Aliança Brasil Nature-based Solutions pelo convite e pela organização da CBCC 2026, e aos colegas de painel pelas contribuições e provocações ao longo dessa discussão.

Seguimos trabalhando para que integridade, escala e capital avancem na mesma direção.
Biofílica. Desde 2008, investindo em pessoas, ciência e florestas.
Sobre a Biofílica
Fundada em 2008, a Biofílica desenvolve Soluções Baseadas na Natureza para apoiar empresas em suas jornadas de descarbonização. A empresa atua com projetos de carbono, restauração florestal, inventários de emissões de gases de efeito estufa e estratégias de redução e compensação, integrando ciência, tecnologia, inteligência territorial e sistemas próprios para gerar impacto positivo para o clima, a biodiversidade e a sociedade.
